Coreia
do Norte alega "barbeiragem" e proíbe mulheres de dirigir
SÉRGIO RANGEL
Enviado especial a Pyongyang
As mulheres trabalham
pesado na sociedade norte-coreana, mas não têm os mesmos direitos que os
homens. Elas não dirigem carros nem bicicleta na capital norte-coreana. Também
não podem fumar no país. A alegação oficial para a proibição das mulheres no
trânsito é que elas já provocaram muitos acidentes em Pyongyang.
A proibição foi determinada
há cerca de dez anos pelo "querido líder" Kim Jong-Il, filho e
sucessor do "pai da nação'', o "presidente eterno" Kim Il-Sung,
morto em 1994. Ao mesmo tempo são elas que
tentam organizar o trânsito local, que tem ruas pouco movimentadas --a Coreia
do Norte tem uma das menores frotas de carro do mundo.
Mulheres-semáforos
As ruas da capital
norte-coreana não têm sinais de trânsito, provavelmente por causa da carência
de energia elétrica no país. Com movimentos ininterruptos, mulheres
uniformizadas sinalizam para onde os carros devem seguir. Em quase todos os
cruzamentos de Pyongyang, há mulheres-semáforos. Elas chamam a atenção pela
beleza, pelas roupas bem cortadas e pela frenética coreografia, repetida
mecanicamente mesmo quando as ruas estão vazias.
As guardas levantam e
abaixam os braços, rodopiam e giram a cabeça sem parar, numa coreografia
mecânica. De noite, elas são substituídas por homens, que mantêm o balé de
braços e pernas com um bastão luminoso para serem visto em meio à escuridão da
cidade.
A Folha não conseguiu entrevistar nenhuma das mulheres-semáforos nos sete dias
em que permaneceu na capital norte-coreana. Elas só deixam os seus postos em
dias de fortes chuvas ou de calor intenso. Nessas épocas, os poucos semáforos
são ligados na capital norte-coreana.
Quatro rodas
O país começa agora a
produzir os seus primeiros carros. Quase todos os que circulam são importados e
estão nas mãos de estrangeiros ou da elite política da capital. Com a carência
enorme de carros, qualquer coisa que tenha motor e ande em cima de quatro rodas
está liberada para circular pelas ruas e estrada do país. Carros com a direção
na direita andam livremente. A bicicleta é o principal meio de transporte do
país. Já no interior, as mulheres podem subir nas bicicletas.
Os ônibus também não são
conduzidos pelas mulheres. Quase todos herdados da antiga Alemanha Oriental, os
ônibus só andam superlotados pela capital. As filas são imensas durante todo o
dia.
Como encontrar carro é raro
numa estrada, eles são capazes de começar a buzinar quando avistam o outro,
mesmo que ele esteja distante mais de 500 metros. Os motoristas também sempre
buzinam ao ver uma pessoa andando pelo acostamento, o que é comum no país que
praticamente se locomove com os pés.
Quarentena
Apesar da discriminação, as
mulheres trabalham muito. Viajando pelo interior do país, é possível ver grupos
femininos trabalhando pesado na terra. Elas também fazem reparos nas obras.
Podem estudar, mas dificilmente chegar numa posição de comando no governo
local.
A maternidade na Coreia do
Norte não é controlada pelo Estado, segundo os guias. No principal hospital da
capital, as mulheres ficam isoladas dos maridos por cerca de uma semana depois
de ter filhos. O chefe do hospital justificou que a "quarentena'' é uma
tentativa do governo para reduzir uma possível contaminação das crianças. Neste
período, os pais se comunicam por um telefone e podem ver a imagem da crianças
e da mãe nas televisões instaladas no setor de visita.
Veto a calças
Até na forma de vestir das
mulheres, o governo dá ordens. No ano passado, ativistas norte coreanos
informaram que as mulheres do país seriam condenadas a trabalhos forçados se
forem pegas usando calças em vez de saias pela nova regra do regime comunista.
Segundo o grupo de defesa
dos Direitos Humanos "Good Friends", elas podem ser punidas com horas
de trabalho forçado ou fiança de 700 won (moeda local), o que equivale a quase
uma semana do salário médio de um trabalhador. Apesar da decisão governamental,
as mulheres andavam livremente de calça pela capital nesta semana.
A campanha irritou as
mulheres, que veem as saias como menos práticas que as calças, disse o diretor
do grupo Good Friends, Lee Seung-Yong. Na época, Uriminzokkiri, um site oficial
norte-coreano, divulgou que o presidente Kim já havia publicado um decreto, em
1986, obrigando as mulheres a usarem o traje tradicional coreano.
Fonte: Folha Online, 23/04/2010
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