Resumo de MENDONÇA,
Sonia. A industrialização brasileira.
2ªed reformulada. São Paulo: Moderna, 2004
O desenvolvimento do sistema capitalista, em muitos países, se confunde com o desenvolvimento da indústria.
Com o Brasil não é diferente: a história econômica brasileira está muito
relacionada a industrialização brasileira. Para entendermos melhor como o
Brasil chegou ao atual nível de desenvolvimento econômico é necessário,
portanto, retomar as origens da industrialização brasileira. A indústria no
Brasil hoje é responsável por cerca de 25% do PIB brasileiro e se distribui de
forma desigual pelo território, como nos mostra a tabela abaixo.
Distribuição regional do valor da
transformação industrial de 1970 a 2003
|
||||
Região
|
Participação (%)
|
|||
1970
|
1980
|
1993
|
2003
|
|
Sudeste
|
80,7
|
72,6
|
69,0
|
63,1
|
Sul
|
12,0
|
15,8
|
18,0
|
19,5
|
Nordeste
|
5,7
|
8,0
|
8,0
|
8,9
|
Norte e Centro-Oeste
|
1,6
|
3,6
|
5,0
|
8,5
|
ANUÁRIO estatístico do Brasil, 2005. Rio de Janeiro: IBGE, 2006, p. 4-23. ROSS, J. (Org.). Geografia do Brasil. São Paulo: Edusp, 2005. p. 377. (Didática 3)
Hoje vivemos em um período de transição para a desconcentração, assim como em boa parte dos países industrializados: as indústrias de intensiva tecnologia tendem a se concentrar próximo às universidades e centros de pesquisa, enquanto que as indústrias de intensiva mão-de-obra tendem a se concentrar nas regiões mais pobres – no nosso caso, na região nordeste. Ainda hoje, contudo, a grande concentração espacial das indústrias está na região sudeste. Esse padrão de concentração tem a ver com uma série de escolhas políticas que foram feitas no passado, que hoje influenciam a vida de milhões de brasileiros. Veremos, então, as principais fases industriais do Brasil.
Hoje vivemos em um período de transição para a desconcentração, assim como em boa parte dos países industrializados: as indústrias de intensiva tecnologia tendem a se concentrar próximo às universidades e centros de pesquisa, enquanto que as indústrias de intensiva mão-de-obra tendem a se concentrar nas regiões mais pobres – no nosso caso, na região nordeste. Ainda hoje, contudo, a grande concentração espacial das indústrias está na região sudeste. Esse padrão de concentração tem a ver com uma série de escolhas políticas que foram feitas no passado, que hoje influenciam a vida de milhões de brasileiros. Veremos, então, as principais fases industriais do Brasil.
- A
Era Colonial
Para entendermos a
nossa industrialização tardia, temos que retomar ao tempo da
não-industrialização, ou seja, na época da colonização. De acordo com Pacto
Colonial, a metrópole portuguesa
tinha total exclusividade para comercializar os gêneros tropicais de alto valor
no mercado europeu que eram extraídos do Brasil ou produzidos em larga escala.
O Brasil era, portanto, uma colônia
de exploração. Por essa lógica, todos os recursos disponíveis da colônia deveriam
ser canalizados para a exportação -- era a Divisão
Internacional do Trabalho clássica. Dessa forma, Portugal não permitia a
instalação de indústrias no Brasil.
Com a transferência da família real para o
Brasil e a abertura dos portos, o monopólio comercial foi extinto, o que gerou
uma enorme invasão de produtos industrializados. A Inglaterra, que era a nação
mais próxima do Portugal, foi muito beneficiada pelo acordo das tarifas
alfandegárias, que não deu condições para os produtores brasileiros de competir
com os bens ingleses. Além disso, a profunda dependência brasileira do trabalho
escravo também foi um grave empecilho para o desenvolvimento industrial, já que
a indústria precisaria de consumidores.
Até 1850, o ritmo de
industrialização foi lento. Com o fim do tráfico negreiro, entretanto, o
dinheiro que era investido na compra de escravos começou a ser canalizado para
o desenvolvimento dos serviços urbanos, bancos e indústrias. O lucro altíssimo
que o café proporcionou nessa época não só era reinvestido na agricultura, mas
também na melhoria dos transportes, da iluminação e do desenvolvimento de
indústrias de bens de consumo imediato
(têxtil, calçado, móveis, etc.), ainda que as máquinas utilizadas nessas
indústrias fossem importadas. Os principais polos de desenvolvimento industrial
dessa época foram o Rio de Janeiro (que era capital da Corte), São Paulo,
Salvador, Recife, Blumenau e Porto Alegre.
- Construindo
a grande indústria
Entre
1880 e 1900, a indústria brasileira de bens de consumo se consolida no sudeste. A expansão da lavoura cafeeira
nos estados do Rio e São Paulo foram geograficamente fundamentais para a
indústria, pois o investimento dos cafeicultores em infraestrutura se
concentrou nessas áreas. Além disso, o crescimento populacional nas cidades da
região permitiu o surgimento de um setor terciário, que favoreceria a
industrialização. Por outro lado, a indústria era completamente subordinada ao capital cafeeiro e seu
desenvolvimento acompanhava os níveis de flutuação do preço do café no mercado
estrangeiro.
Duas classes sociais
cresceram e se fortaleceram nessa época. A primeira foi a burguesia industrial, que era originada do café ou de imigrantes
endinheirados que vinham fazer fortuna no Brasil. A segunda foi a classe operária, composta, sobretudo,
de imigrantes pobres, que não conseguiam emprego nos países de origem. Os
trabalhadores eram superexplorados, enfrentavam jornadas de trabalho de 16
horas, ganhavam baixos salários e eram muito heterogêneos, o que dificultava
sua organização política. Os operários eram vigiados e controlados, mantidos em
bairros próprios, e o número de acidentes de trabalho eram estratosféricos,
devido as condições de insalubridade.
- Entra
em cena o Estado
A indústria, como já
vimos, era totalmente dependente do café. A economia brasileira como um todo,
então, era subordinada aos preços internacionais desse produto, já que todos os
setores econômicos se consolidaram em torno dele. Com a Crise de 29 – que estourou
nos Estados Unidos mas afetou o mundo inteiro – houve redução nas compras do
café, o que gerou a diminuição dos preços. A exportação brasileira diminuiu de
95 milhões de libras, em 1929, para 38 milhões em 1931. Enquanto isso, o preço
do café caiu em um terço do que era vendido anteriormente. Isso gerou uma crise
econômica, social e política no Brasil, que culminou com o golpe de Getúlio
Vargas.
| Getúlio Vargas |
O Estado passou a
adotar uma filosofia intervencionista,
em oposição ao liberalismo que estava decadente no mundo inteiro com a crise
econômica. O governo seria um investidor que criou inúmeras indústrias de base
e de bens de capital, como a CSN, a Vale, a Álcalis e a hidrelétrica do Vale do
São Francisco. Na pauta nacionalista de Vargas estava o protecionismo
alfandegário e os impostos elevados, para que o Estado arrecadasse dinheiro
para a produção industrial.
![]() |
| Apoio operário ao Vargas |
Apesar de todos os aspectos positivos, a industrialização brasileira foi considerada restringida por muitos pesquisadores. Em primeiro lugar, porque se preocupava demais com as indústrias pesadas e pouco com as demais, o que começou a gerar insatisfações em alguns grupos sociais, nacionais e internacionais. Em segundo lugar, pois utilizava alguns equipamentos obsoletos, o que gerou uma vontade da sociedade de modernização e internacionalização.
- Desenvolvimentismo
e internacionalização
A deposição de Vargas
do governo, em 1945, foi o estopim de uma crise política, pois determinados
grupos nacionais desejavam a volta do livre comércio. Os presidentes que se
seguiram, até o golpe de 1964, disputaram o poder em nome do conflito de
interesses entre os liberais e os intervencionistas, ou seja, os que desejavam
o fim do controle do comércio exterior e os nacionalistas. Eurico Gaspar Dutra,
que assume o poder em 1945, representava o liberalismo, permitindo a entrada de
alguns gêneros importados e fazendo acordos com os Estados Unidos. Vargas, por
sua vez, que volta ao poder em 1950, representava o intervencionismo. Foi nesse
último governo Vargas que foi criado o Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico (BNDE), mais tarde chamado
de BNDES e a Petrobras. O suicídio
de Vargas representou a derrota do modelo nacionalista.
| Juscelino Kubitschek |
O modelo de JK foi
chamado de Plano de Metas, onde o
presidente afirmava que o país cresceria 50 anos em 5, através de um
planejamento econômico integral. Nesse contexto que Juscelino constrói Brasília
e transfere a capital nacional para o interior. De fato, em alguns setores
industriais como as rodovias e a energia, houve uma explosão do investimento e
um salto tecnológico. Contudo, em setores como alimentação e educação o
investimento diminuiu muito.
Podemos afirmar,
também, que a industrialização de JK beneficiou muito os bens de consumo
duráveis, o que gerou um descompasso de crescimento entre os três setores e a
consequente importação de máquinas e de bens de capital. Assim, a dívida externa explodiu nesse período,
já que os produtos que vinham de fora tinham muito mais valor agregado do que
os que eram exportados, gerando um grande déficit
comercial. A desvalorização da moeda nacional e a crescente inflação contribuiu para o aumento cada
vez maior da dívida e também aprofundou a concentração
de renda. A fé no nacional-desenvolvimentismo iria explodir a qualquer
momento, mas o carisma de JK conseguiu empurrar a bomba para o seu sucessor.
- Um
modelo perverso
O modelo populista cedo
ou tarde cairia por terra. O Plano de Meta não conseguiria se manter eternamente, pois os
investimentos vieram de forma intensa de uma vez só, e era impossível
transformá-los em uma política econômica permanente. A contínua inflação e a
queda dos salários reais, somada ao menor crescimento dos empregos gerou grande
insatisfação popular, não só dos trabalhadores, mas das classes médias. O Golpe
de 1964 não foi criado por uma conjuntura política apenas, mas em grande parte
pelo contexto econômico.
O governo militar, por
sua vez, consolidou o modelo nacional-desenvolvimentista e o Plano de Metas de
JK, mas “aperfeiçoado”, que ficou conhecido como milagre econômico. A principal transformação econômica da época foi
a manutenção dos altos níveis de industrialização e crescimento com uma diminuição
brutal dos salários reais dos trabalhadores. A política de arrocho salarial criou reservas para o governo, possibilitando o maior
investimento nas indústrias. A diminuição dos salários dos trabalhadores e o
crescimento industrial gerou mais concentração de renda. Seria a grave
deterioração da qualidade de vida da classe trabalhadora que sustentaria o “milagre”.
O regime militar também
criou novos impostos para quebrar as pequenas empresas, que não podiam arcar
com os custos, o que favoreceu a criação de oligopólios e a centralização industrial nas
multinacionais, que internacionalizaram ainda mais a economia. O governo também
diminuiu os gastos com as estatais, de modo que elas aumentassem os preços dos
serviços para os consumidores e se autofinanciassem, sem a necessidade de
auxílios econômicos a todo o momento. Para pegar dinheiro externo emprestado e
investir no crescimento do milagre, o governo vendeu títulos públicos, que seriam dívidas que o governo passaria
a ter com o investidor que as comprassem. A medida gerou um movimento de
especulação muito forte, o que favoreceu banqueiros e acionistas
internacionais.
O milagre econômico
começou a dar sinais de falência com a crise
do petróleo, em 1973. Essa crise explodiu os juros internacionais e o preço
dos equipamentos industriais que funcionavam a base do petróleo. Os
trabalhadores também começaram a demonstrar insatisfação quanto ao modelo
político-econômico. A solução encontrada pelo governo foi aumentar os impostos
para arrecadar mais dinheiro e gerar mais especulação, para tentar manter o
milagre. Mas, nesse caso, as medidas foram desastrosas: a primeira gerou
insatisfação das classes médias, que foram a grande sustentação do golpe de 64;
a segunda despertou um novo ciclo inflacionário e o aumento estrondoso da
dívida externa.
O fracasso do milagre
econômico ficou bem representado através da derrota do 2º Plano Nacional de
Desenvolvimento (PND), proposto pelo general Ernesto Geisel. A falta de
dinheiro estrangeiro para executar esse desenvolvimento foi responsável pela
perda de legitimidade, inclusive política, do regime militar, que foi encerrado
em 1985. Pensava-se, então, que a redemocratização
iria combater a inflação e aumentar os salários. Contudo, nenhum dos planos
econômicos que se sucederam na Nova República conseguiu diminuir as
insatisfações, pois nenhum deles atacou as origens do problema: a concentração
de renda e a especulação.
- Desnacionalização
e Desindustrialização
Fernando Collor foi o
primeiro eleito através de eleições diretas no Brasil e foi o primeiro
responsável pela aplicação restrita da política
neoliberal no país. Segundo essa doutrina, o mercado é a entidade suprema
do capitalismo. Na verdade, nada mais é do que uma revisão do antigo
liberalismo econômico de Adam Smith, aplicado a modernidade. Essa política
econômica era baseada em um tripé: não-intervenção do Estado no mercado
financeiro, redução dos gastos públicos e privatização de empresas estatais.
Essas medidas trariam lucros e
investimentos privados, que gerariam empregos para toda a sociedade.
Entretanto, o modelo
neoliberal só trouxe lucro e concentração
de renda. Em primeiro lugar, porque houve uma transformação na estrutura produtiva das indústrias com a
globalização. O avanço tecnológico e a entrada da informática e da robótica
necessitava do trabalhador polivalente, que executava inúmeras tarefas dentro
da fábrica. Era o pós-fordismo, que substituía o fordismo, e gerou desemprego, terceirização, precarização
e inúmeras formas de flexibilizar as leis trabalhistas. Em segundo lugar, já
estava instalada a financeirização da
riqueza, onde o que era mais importante era a especulação em detrimento da
produção, e não havia mais a necessidade de correspondência do dinheiro em
papel, apenas em transações comerciais e eletrônicas. A atividade especulativa,
favorecia pelos altos juros, inibia os investimentos produtivos. Os ciclos
inflacionários e o desespero da sociedade geraram o impeachment do presidente Collor.
A estabilização da
inflação só ocorreu com o Plano Real,
elaborado pela equipe econômica de Fernando Henrique Carodso, enquanto ele
ainda era Ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco. Essa medida gerou a
eleição e a reeleição – que não era permitida no Brasil – de FHC. O custo da
estabilização financeira, contudo, foi caro para a economia brasileira e para
os trabalhadores.
O governo derrubou as
barreiras protecionistas, o que favoreceu a entrada de produtos estrangeiros seguindo
à risca o dogma neoliberal profetizado pelas economias centrais. Essa medida
favoreceu a desindustrialização,
pois alguns produtores nacionais não conseguiam competir com os bens que vinham
de fora sem nenhuma tarifa e, consequentemente, desemprego (como mostra o
gráfico abaixo). Além disso, o país passou a depender enormemente dos capitais
estrangeiros, o que levou a desnacionalização
da economia, além do aumento enorme das taxas de juros, o que gerou
concentração de renda.
![]() |
| Os anos FHC ficaram marcadas, entre outras coisas, pela ingerência do FMI nos assuntos internos e pela submissão aos Estados Unidos |
A venda de estatais
para o capital estrangeiro também foi pauta do governo FHC. Inúmeras empresas
se fundiram ou eram adquiridas por outras nessa etapa do capitalismo
brasileiro. Verificou-se a diminuição no número de empregos formais (com carteira
assinada), o que gera a possibilidade de qualquer tipo de exploração do
trabalhador, já que ele não está amparado pelos direitos trabalhistas. O
crescimento econômico, que, de certa forma, favorecia a distribuição de renda,
também diminuiu muito nesse governo. O presidente chegou a afirmar que a culpa
do desemprego era dos próprios trabalhadores, quando cunhou o termo
“inempregabilidade”, sem questionar a subordinação ao FMI ou buscar
alternativas para a crise socioeconômica decorrente do fechamento das
indústrias brasileiras.
Os anos FHC ficaram marcados pela ingerência do FMI nos assuntos internos, pela política externa submissa aos Estados Unidos, pela privatização de empresas estatais, pelo desemprego, pela concentração de renda e pela crise do setor elétrico, mas com inflação sob controle.
Os anos FHC ficaram marcados pela ingerência do FMI nos assuntos internos, pela política externa submissa aos Estados Unidos, pela privatização de empresas estatais, pelo desemprego, pela concentração de renda e pela crise do setor elétrico, mas com inflação sob controle.
“Todos os indicadores
revelam que, em matéria de políticas sociais e trabalhistas, o governo do
presidente Fernando Henrique foi um grande desastre, baseado no binômio
Estado-Mínimo para o trabalhador e Estado-Máximo para o capital. Um dos maiores
sintomas desse desastre, hoje, é a violência. Enquanto as autoridades públicas
das grandes metrópoles continuarem a buscar saídas “cinematográficas” para
combatê-la, sem enfrentar suas raízes mais profundas – justamente a política
econômica desnacionalizante --, pouco se poderá fazer para reverter o
problema.” (MENDONÇA, 2004)



Que texto interessante!! Fica até fácil de entender.
ResponderExcluirAgora estou lendo esse. É muita coisa professor, mas calma que vou ler tudo falta só essa postagem.
ResponderExcluirBeijo!
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